Porque temos tanta dificuldade em aceitar o colo para os bebês?
- Talita Silva

- 22 de jun. de 2021
- 3 min de leitura
É interessante pensar que quando adultos muitas vezes buscamos, em situações de dificuldade normalmente, a sensação de conforto e segurança que associamos ao colinho de mamãe, quem nunca quis ou disse “como eu queria um colo de mãe agora” e quando dizemos isso não estamos em busca do físico, mas sim da sensação que ele nos proporciona ou proporcionou.
Pois então, veja bem, existe um mecanismo psíquico que funciona em todos nós que nos faz compensar a falta. Existe uma geração INTEIRA que sofreu, e ainda sofre, a falta do colo, que é na verdade a falta da segurança, do apego, do vínculo, do conforto, e tudo de maravilhoso que pode vir deste lugar, sendo assim essa geração não consegue aceitar os benefícios de dar colo a um bebê por não tido isso, e torna-se difícil olhar para esse passado pq ele se perpetua, a falta de colo nos fez inseguros de nós mesmo, causou uma dor profunda de abandono e nos faz querer achar no outro o colo que não tive, que consequentemente não me ensinou a ser colo para mim. Então como posso aceitar que deem amor a outro se minha ferida ainda está aberta? É necessário ser primeiro eu, eu preciso de colo primeiro, somente assim poderei dar ao outro.
Veja, na maternidade, em sua maioria, quando estamos abertos a, vamos curando nossas feridas enquanto damos aquilo que não tivemos, este não é um processo fácil, pois para dar o que não tivemos precisamos saber o que não tivemos e para saber é necessário a coragem de mergulhar em si, em suas feridas, processo esse que é em sua maioria doloroso, mas extremamente libertador, e digo por experiência que com apoio profissional adequado é mais tranquilo, assim teremos um lugar seguro para correr e contar dos nossos monstros.
Além da parte emocional/psíquica da coisa, tem, é claro, a parte sócio-histórica da coisa (que se constrói a partir de uma sombra coletiva, de uma dor compartilhada por todos). Vamos analisar alguns fatos:
Dar atenção e colo a um bebê tira a mulher (principal cuidadora ainda hoje), que antigamente era a única responsável por filhos e casa, de suas tarefas de casa e esposa, afinal seu corpo e mente estão entregues ao bebê.
Se a mulher não fizer quem vai fazer? Trabalhos domésticos não eram coisa de homem (e parece que ainda não é, em pleno século 21).
Trazendo para uma realidade um pouco mais atual a mulher moderna é cobrada para ser produtiva e eficiente em seu trabalho/carreira (muitas vezes as próprias mulheres se cobram isso, pois assim elas conseguem ter algum valor na sociedade), sendo assim muitas vezes não sobra espaço e tempo para tal.
Mães solo de baixa renda não tem escolha, existe uma necessidade real de sobrevivência, é necessário trabalhar, não há quem divida as tarefas econômicas e do lar para que possa pensar nisso.
Diante das cobranças sociais as mulheres e cuidadores sentem-se mal ou não conseguem espaço em sua vida para isso e dessa forma o ciclo de desapego se perpetua e continuamos a não dar segurança emocional para nossas crianças.
Diante de uma realidade de transição quero esclarecer que qualidade é melhor do que quantidade e que busquemos fazer por nossas crianças o melhor que estiver ao nosso alcance dentro da nossa realidade para que possamos plantar uma vida melhor, no presente, para nós, cuidando de nossas feridas, e no futuro, fornecendo um terreno fértil para elas se construírem saudáveis.
Este texto é de autoria: Talita Silva



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